Textos

O poço

Douglas Ceccagno
23/09/2018


Era uma vez um homem de viver sozinho, cruzando cidades, desde quando havia saído para buscar vida melhor. Agora, por todo lado vê campos verdes, mato e abandono. Pergunta a si mesmo se há ainda algum sentido em voltar ao passado despovoado, ou se o cansaço de tanto correr mundo faz a gente assim saudosa, querendo retornar ao nosso lugar de antiguidade. Ali não terá mais a colônia, nem sequer um pouso. Sempre a solidão de desterrado o empurra a percorrer as vastidões, sem rumo. Não pode acreditar em outra coisa para trazê-lo de volta ao lugar onde nasceu.

A fome é fácil de enganar: pede ajuda para os viajantes; são raros, mas ele é capaz de andar muitas léguas com um pedaço de pão no estômago. A sede castiga mais: às vezes nem uma saliva para empastar a boca. Nesse momento, precisa urgente de um gole d’água para aguentar as próximas horas de caminhada. Apertando as vistas em fogo, implora ao destino uma fonte, um açude, ou uma alma, alguém para lhe conseguir qualquer miséria de líquido para beber.

Com o aclive quase imperceptível da estrada, o topo da ladeira se revela mais distante à medida que caminha. E a língua áspera já gruda nos dentes, sem a viscosidade de um cuspe. Demora a vencer o terreno e, quando os passos cessam, ele ouve a respiração saindo ritmada do peito, como um trem de outros tempos no silêncio vespertino do campo. Observa o vasto mundo agora tão mudado aos seus olhos antigos: vales, montanhas, mata, umas poucas reses espalhadas e, no entanto, tudo é deserto: um grande deserto verde só cortado pela estrada de poeira seguindo fina para o horizonte, resguardada por arames farpados numa extensão infinita, separando o mundo inteiro em duas fazendas desabitadas.

Senta na estrada, abraça as pernas, enxuga a testa com a mão incrustada de poeira e espera o peito sossegar. Ao longe, o sol se desfaz pouco a pouco do peso dos raios, se preparando para o mergulho sonolento. E o homem, várias noites atirado no tapete espesso da relva. Só nos últimos instantes de luz, com o sol sangrando o céu sobre a estrada, ele percebe um amontoado de pedras na distância.

Já diziam que Deus está nas pequenas coisas, mas o diabo é quem comanda os detalhes. Crendices à parte, nos momentos de necessidade é quando mesmo Deus aparece. O homem atravessa a cerca de arame e segue caminhando, cada vez mais rápido, vendo as pedras crescerem de dimensão enquanto seus contornos vão desaparecendo na luz fraca. Quando se aproxima das rochas, o sol já está sumindo no horizonte, mas ele ainda consegue ver o poço, fechado por uma pedra, tão grudada às outras e tão pesada que lhe parece impossível retirá-la, mas tem de trabalhar se quiser encontrar água ali dentro.

A surpresa o aborrece. Mas o poço faz lembrar uma história contada pelo Padre Giácomo quando ele era pequeno: de um sujeito que, perto de um poço como aquele, conheceu uma donzela e se apaixonou, porém precisou trabalhar catorze anos para agradar o pai da moça e ganhar a bênção para o casamento, porque se trabalhasse só sete, o sogro lhe empurraria a filha mais velha no lugar da mais nova. Ele não precisará trabalhar tanto; é só usar a cabeça: verifica pelo tato os contornos das pedras, procura um buraco, agarra a esperança de encontrar água. Tateia rápido, mas com força, acreditando no destino: deve haver água, só precisa vencer as rochas.

Cego na noite silenciosa do campo, arrasta os dedos pelo chão, procurando algo para firmar na base da tampa do poço e empurrá-la, mas a busca é vã. Tenta mover as rochas, mas é inútil. Há décadas, talvez séculos, elas estão ali, grudadas uma à outra, encaixadas como se enfrentassem juntas todas as forças deste e do outro mundo.

A sede maltrata mais a garganta a cada minuto. Prendendo o corpo às pedras e desprezando os músculos que pedem descanso, o andarilho força a tampa. É preciso força e paciência; não necessitará trabalhar catorze anos, só mover uma pedra. Sente os músculos se retesarem, mas, seja pela sua fraqueza, seja pelo peso da rocha, ela não se mexe um centímetro sequer. Empurra de frente, de costas, implora aos santos, diz imprecações à tampa, mas ela não cede a seus rogos nem a seus xingamentos. Ele, porém, já não suporta a garganta seca. Junta toda a força que lhe resta e consegue mover por um centímetro a tampa do poço. Logo, um grito lhe foge da garganta, atravessa o campo e se perde no horizonte. Depois disso, tudo fica mais fácil: a pedra parece até pesar menos quando a desloca até abrir espaço suficiente para poder passar.

Desce com cuidado para as pedras úmidas não se soltarem. Os pés buscam as fendas entre as rochas, enquanto as mãos agarram firme em suas superfícies lisas. O andarilho tem pressa de matar a sede, mas também sabe do perigo de cair em um buraco de profundidade incalculável.

Depois de descer umas sete vezes a sua altura, respira e descansa um pouco. Olha para cima em busca de luz, mas ela já o abandonou. Só sente o ar cada vez mais difícil de inspirar: precisa chupá-lo com mais força para dentro dos pulmões. Pensa em voltar, mas já não tem forças para subir. Fica parado um instante. Respira fundo. Precisa continuar. A sede também aperta cada vez mais, e as pedras são escorregadias. Só há um jeito de suportar mais um pouco a sede: bebendo a umidade das rochas.

Quer afastar do pensamento a ideia de poder haver insetos, vivos ou mortos. Aproxima a língua e lambe a pedra diante do rosto. Um gosto acre de terra e musgo invade a boca. Mas tem sede: lambe duas, três vezes. Coragem. Não há alternativa: uma vez iniciado o caminho, deve ir até o fundo: a sede não permite retornar sem beber um grande gole, muito mais do que poderia beber nas pedras.

Por isso, tem de persistir em seu propósito, sentindo enfraquecer os músculos, porém cuidadoso ao agarrar as rochas. Quando está retomando a descida, ouve um barulho vindo lá de cima. Se alguém aparecesse ali, no meio do nada dos campos, sem saber que ele havia entrado no poço, poderia empurrar a pedra de volta e deixá-lo preso lá dentro. Quer desistir, voltar antes da pessoa ir embora, mas já desceu muito, e precisa de água e descanso. Está ficando frio, o fundo não deve estar longe. Olha para cima, para baixo, para todos os lados. Aperta os olhos, depois abre ao máximo, mas não vê luz alguma para servir como guia. Só lhe resta continuar tateando as pedras até o fim.

Ele já perdeu a noção de quanto tempo se passou desde a entrada no poço. Que estará acontecendo lá em cima? Alguém teria botado a pedra de volta? Respira fundo, um ar cada vez mais difícil, e continua a descida. Porém, seu pé esquerdo, ao tentar se firmar, esbarra no vazio. Tenta voltar um pouco, apoiar o esquerdo e prosseguir com o direito, mas os dois pés estão soltos no ar: as rochas acabaram: ele se pendura sobre um abismo.

O retorno é impraticável: suas forças não permitiriam a subida. Descer é se atirar ao desconhecido, talvez sem nenhuma possibilidade de voltar. Conforme seu coração se comprime com o temor, a respiração fica mais difícil e seus braços e pernas vão perdendo as forças. Aos poucos, os dedos escorregam, até o homem despencar da parede de pedras, lançando um grito na escuridão.


Leia o final dessa história no livro Ópera Subterrânea.
Compre pelo site na aba Livros.


Cadastre-se no portal Escrita Criativa para receber dicas de escrita, artigos e informações de concursos

 

 

Comentários:

Envie seu comentário

Nome :
E-mail :
Cidade/UF:
Mensagem:
Verificação:
Repita os caracteres "222806" no campo.