Textos

Ópera subterrânea

Douglas Ceccagno
23/09/2018


A cavidade na parede do quarto dava para um teatro. Era aonde ele ia quando não havia ninguém em casa para ficar cuidando. Lá, gostava de se lembrar de quando era o astro dos espetáculos, a sala lotada, as pessoas aplaudindo. Na casa, tudo lhe era estranho – acordava todas as manhãs com a sensação de nunca ter estado ali –, inclusive o casal que o tratava como se sua vida já tivesse acabado. Eles não sabiam do buraco escondido pela cabeceira da cama, até quando teria forças para movê-la? Esperava ouvir as voltas da chave na porta da frente, na parte de cima da casa, a saída do casal, e arrastava o móvel de encontro à porta. Por uma passagem estreita, seus pés tocavam a escada apoiada na parede do camarim número cinco. Depois de tatear nas trevas, caminhava com cuidado, tentando evitar o rangido das tábuas, até conseguir olhar, da coxia, o auditório se estendendo no horizonte, e relembrava cada detalhe da decoração, as paredes avermelhadas, as pessoas na plateia com um sorriso no rosto, às vezes contendo as lágrimas, e ficava feliz ao recordar os conhecidos acenando, querendo cumprimentá-lo durante o espetáculo, enquanto ele os ignorava, concentrado na representação.

Nunca tinha sido recusado para nenhum papel e nunca havia esquecido um verso sequer, a não ser naquela vez, quando a cantora nova... A peça mais bela que havia representado. Ela principiante, nervosa como todas as outras que faziam dueto com ele, um cantor experiente, de fama reconhecida, sempre seguro, amparado pela adoração do público. Era difícil suportar o fato de ter deixado fugir o verso do encontro. Um instante marcado para sempre na sua memória, uma dor partindo de um único momento e atravessando todo o seu futuro. Lembrava-se de ter arrancado a máscara e abandonado o palco, deixando a jovem carregar sozinha o seu erro. Mais nada. Depois daquilo, sabia apenas da doença engolindo a voz, de ser cuidado por um casal de cantores fracassados e de viver escondido do mundo para não ter de aguentar a piedade de quem antes só lhe dedicava admiração.

Por isso, não ousava transpor os bastidores. Ficava ali, escondido dos fantasmas, sentindo o cheiro do mofo e da fumaça dos charutos incrustada nas paredes. Às vezes permanecia muito tempo contemplando os tapetes, as poltronas, e, quando se lembrava de voltar ao quarto, se apressava escada acima, deitava rápido na cama e ouvia os solfejos do casal até um deles sentir fome e trazer também para ele um prato de comida ruim.

Mas, dessa vez, uma coisa mudou a sua rotina, porque, apertando bem os olhos, lhe pareceu ver na última fila um homem sentado, e pensou, é claro, que os olhos gastos o enganavam. Quem entraria em um teatro fechado há tanto tempo? E será que também olhava em sua direção? Era impossível definir a direção do olhar do homem, mas conseguia, mesmo de longe, distinguir o terno preto e a fumaça de um charuto a fazer desenhos no ar. Pensou em voltar, trancar a cavidade da parede, se esconder. Deu meia-volta, mas ouviu o rangido das tábuas bem atrás dele. Voltou-se. Quis falar, perguntar se havia alguém, mas não pôde. Apertou os olhos para ver melhor: o homem não estava mais lá. Sentiu um arrepio subindo pelas costas. Buscando mais luz, nem percebeu que entrava no palco. Agora se misturavam a saudade dos tempos gloriosos e o receio de alguém aparecer para reconhecê-lo, flagrar a sua decadência. De repente, lhe veio um ímpeto incontrolável de ouvir a própria voz ecoando no teatro, mas nem um fio de som lhe saiu da garganta. E teve medo do próprio devaneio levar suas lembranças para um local que ele não queria rever. Desceu a escada na lateral do palco e foi direto ao corredor central, caminhando a passos rápidos em direção à saída.

Porém, quase no fim do trajeto, começou a ouvir os acordes da peça. A mesma que tinha arruinado suas memórias. Não era possível, não podia estar acontecendo de novo. Apressou ainda mais o passo, e a música também se apressava, mas o auditório parecia nunca acabar. Quando já alcançava a saída, o som do órgão de repente parou: era a hora da entrada da soprano. Um arrepio lhe desceu pela espinha; queria fugir, mas sentia os pés presos no chão. Virou-se para ver. No palco, estava o casal, entoando outra vez o mesmo dueto. In sleep he sang to me, in dreams he came. Agarrou o encosto da poltrona da última fila, sentou, respirou fundo e apoiou os braços. No palco, ela continuava jovem e bela como antes, com os cabelos escorrendo pelos ombros, as mãos desenhando a expressão da música pelo ar, o peito arfante sob a gola do vestido. E como seus olhos brilhavam, mirando o cantor mascarado!

Com a respiração ofegante, ele se mexia na poltrona, esfregando as mãos no terno para secar o suor. Inside my mind. A música parou. Era o exato instante em que ele esquecia o verso, o momento em que sua vida e suas lembranças haviam parado. Se ergueu e se inclinou para a frente, as mãos firmes nos braços da poltrona, os olhos atentos ao mínimo gesto no palco. E lá estava a cantora, estática, olhando fixo para o tenor, esperando a resposta. Ele havia esquecido. Como da primeira vez. Enquanto uma lágrima corria pelo rosto do velho, o outro tenor, preso ao palco, olhava para diferentes poltronas do auditório silencioso como se uma multidão o preenchesse. Depois, mirava o rosto aflito da soprano. E o velho, ansiando pelo desfecho, nem notou a presença de um homem, de terno negro e charuto, observando tudo pelas costas. Quando o tenor arrancou a máscara do rosto, o velho viu... Não era ele! Aquele tenor não era ele! Ele era somente um indivíduo anônimo na plateia. Apenas assistia ao espetáculo. E teve a lembrança de tudo ter sido sempre assim: ele assistindo à peça, aflito, enquanto um desconhecido esquecia a resposta. E viu que tudo aquilo de que se lembrava, do modo como lembrava, era falso: teatro, dueto, soprano, máscara, esquecimento. Teria sido mesmo um tenor famoso? Ou apenas uma ilusão carregada durante mais de sessenta anos? Foi quando sentiu a mão do outro em seu ombro.


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